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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Pedal do Meio

Nada como duas horas no trânsito.

Suficientes para sentir os 32,5ºC como se fossem vinte, depois quarenta, depois molhados.

Nada como tirar a sandália e não tirar os olhos do meu retrovisor com medo de se repetir a mesma cena de assalto (se bem que já tenho um celular reserva em um dos porta-copos).

"Vou deixar a janela meio aberta mesmo". E agradecer o pote de mil mentos que comprei só porque cabe certinho no meu outro porta-copos ocioso e também como previdência para um belo trânsito sextafeiral.

Li o final do conto do Veríssimo, vi se minhas unhas já secaram, buzinei, estressei, odiei e fechei a janela quando parei do lado do boteco (não daqueles sujos dos quais eu, imunizadamente, amo tomar café no copo americano) de aparência e clientes asquerosos.

Eu tinha que ficar na faixa da esquerda rápido...não por nada, só pra gritar "Goiabaaa!!".

E eu comprei a inflacionada e mais deliciosa transgênica goiaba vermelha do mundo dos faróis!

Dai tudo ficou bonito mesmo. Meu ipod descobriu que não pode tocar Kitaro depois de tocar Roulette Dares, minha maquiagem se descobriu derretida e a chuva choveu, parou e brisou um vento digno de correr o risco com as duas janelas abertas e de aumentar o som e jogar o braço pra fora e sentir algumas gotas persistentes.

E assim eu me despedi da flor presa no meu vidro da frente, que cuidou de ficar lá comigo por duas horas, até a nova chuva.

Que choveu na hora certa o suficiente pra preparar o mato daqui de casa, que se perfumasse com aquele cheiro molhado e verde dos serenos...

Serenidade em hora tão irônica e mais bem-vinda.

novembro 2010



Esse texto não é meu ele é de Layla el Mouallem, uma amiga da Santa Casa.

domingo, 16 de outubro de 2011

PASSARINHOS RADIOATIVOS

Mais um dia de chuva... e bem no domingo!
Pensando com mais profundidade até que isso não é tão ruim, já que a chuva é uma bela desculpa para não fazer absolutamente nada e ficar em casa sem o menor peso na consciência. Afinal de contas, está chovendo! e muito!!
Bom, depois de ler quase todas as pendências bibliográficas que me aguardavam na cabeceira da minha cama e de explicar ao meu cachorro, em um bom e claro português, que ele não pode sair porque está chovendo... (sim, porque um dia resgatei com minha irmã um cachorro perdido que só falava francês!, o que viemos a descobrir com muito custo. Após esgotarmos todo o nosso vocabulário canino, um conhecido do cachorro veio nos dizer com a maior naturalidade do mundo: "mas esse cachorro é do fulano de tal" - um francês! e com umas poucas palavras de um tosco francês finalmente nos entendemos com o rottweiler e o devolvemos ao seu dono)... mas, voltando...
Após usar toda minha psicologia para convencer meu cachorro de que não íamos sair, resolvi encarar um pouco do ar frio desta manhã e observar os passarinhos radioativos que habitam o meu quintal. Foi muito difícil ligar os bicos verdes-neon destas criaturas ao pé de abacate que ocupa uma área considerável do nosso pequeno quintal. Ninguém botou muita fé no carocinho de abacate com folhas, tão bonitinho há 12 anos, e fomos deixando ele ficar no meio do quintal até quando já era tarde demais. Hoje em dia, na época da colheita, recebemos as visitas aqui em casa com aquela roupa de motocross, de capacete e tudo. A abacateira tepeêmica furiosamente ataca a todos lançando abacates tão pesados quanto verdadeiras bolas de boliche, por sobre nossas cabeças. Ainda bem que todos os bichos que habitam nosso quintal estão habituados ao comportamento instintivo desta bonita árvore... nunca tivemos, com exceção de um visitante desavisado, nenhuma baixa!
E agora estou aqui... com meu cachorro boxer, observando passarinhos radioativos no nosso quintal... 
A chuva apertou, os livros se consumiram em leitura e os bicos verdes dos passarinhos me fazem viajar para outros mundos onde criaturas devem nascer realmente desta cor...
Ah! E acabaram de ligar do hospital para informar que nosso amigo - aquele da abacatada na cabeça - está de alta! Que alegria!!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

DIA DE CHUVA

A surdez da minha irmã nunca foi um segredo, muito menos um problema. Ninguém dá muita bola para isso e confesso que por vezes esquecemos completamente do fato. Mas há ocasiões que por alguns meses, até mesmo anos, nos fazem reavivar a memória e nos obrigam a encarar com mais seriedade os pequenos problemas alheios.
Era inverno, morávamos em Vitória, estava frio e chovendo.
Escutávamos no rádio e na TV notícias incessantes sobre o fugitivo Edimilson. O preso de maior periculosidade da época havia fugido da prisão numa ação cinematográfica, deixando toda a polícia de prontidão, à sua procura.
Chovia muito naquele dia, e a população havia sido alertada a permanecer com as portas trancadas e as grades das janelas fechadas, visto que o Edimilson estava a solta.
Estávamos vendo TV, sozinhas em casa (meus pais estavam viajando) quando toca a campainha. Mandamos minha irmã mais nova, a surda, ver quem estava na porta.
Após alguns minutos ela volta, branca, pálida!, como se tivesse visto um fantasma! anunciando que o primo do Edimilson estava na porta, tocando a campainha... TOCANDO A CAMPAINHA???
Em primeiro lugar: você acha que o primo do Edimilson ia TOCAR A CAMPAINHA???
Em segundo lugar: você acha que o primo do Edimilson ia tocar a campainha e se ANUNCIAR?

Em terceiro lugar: o nosso vizinho se chamava Denilson...
Bom, a essa altura minha irmã já havia ligado para a polícia enquanto o pobre coitado encharcado continuava tocando a campainha de casa e gritando alguma coisa que realmente era difícil de entender com aquela chuva toda.
Por via das dúvidas ficamos esperando a polícia chegar, o que aconteceu em milésimos de segundos, pois todos queriam pegar o Edimilson!!
A joaninha estacionou na porta de casa enquanto olhávamos pela janela o sujeito ser agarrado por dois guardas fortemente armados... bom, só aí, quando a voz do suspeito realmente se elevou, conseguimos entender o que ele dizia:
- Me larga!!! Eu sou primo do DENILSON!!! - o vizinho!
A confusão estava formada... meus pais tiveram o maior trabalho pra desfazer o mal entendido com o coitado do Denilson e seu primo encharcado. O primo, não encontrando ninguém na casa do Denilson, bateu lá em casa e pediu abrigo da chuva... só isso! O que fez com que a surdez da minha irmã fosse valorizada por alguns meses após o episódio.
No momento a referida patologia encontra-se em total esquecimento, até o próximo fora romanesco, que esperamos ansiosamente para lembrarmos depois com ataques de riso.